sexta-feira, 27 de março de 2015

Primeira reunião da equipe de preparação para o II COPENE SUL, que será realizado em Curitiba




Nas última teça feira, dia 24 de março a equipe de organização do II COPENE SUL, que será realizado em Curitiba se reuniu para dar inicio/continuidade aos trabalhos de organização deste evento, que se realizará do dia 21 a 24 de julho de 2015. A reunião contou com a presença do Professor Paulino, Coordenador da ABPN, A professora Maria Nilza da Silva(NEAA/UEL), a professora Aparecida de Jesus Ferreira (NUREGS/UEPG), O professor Paulo Vinícius (NEAB/UFPR), professor Josafá Soares (NEAB/UFPR), O professor Ivo Queiroz (IFPR) e demais acadêmicos a UFPR e da UDESC. Na primeira quinzena de abril sairão as chamadas para a submissão de trabalhos no Congresso.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Pessoas NEGRAS não são fantasia: carta de repúdio ao bloco carnavalesco Garibaldis & Sacis


No último dia de desfile do bloco carnavalesco Garibaldis & Sacis, que aconteceu dia 08 de fevereiro de 2015, um dos integrantes que estava em cima do trio elétrico, utilizava uma malha ou tecido da cor preta sobre o corpo, numa tentativa ridícula de se caracterizar como uma pessoa negra, ato este que é conhecido como blackface. O blackface é uma prática racista que existe desde meados do século XIX, sendo utilizada para ridicularizar as pessoas negras, desde a sua cor às suas formas corporais; e por mais que os praticantes do blackface interpretem isso como uma prática carnavalesca sustentada no discurso de que nada mais é que uma brincadeira, ele é sim altamente racista.
blackface
Este tipo de representação faz parte de uma cultura praticada por pessoas brancas, e não representa as pessoas negras e/ou sua cultura no carnaval, mas reitera sim estereótipos e preconceitos. No Brasil essa prática teve início na década de 1950 com a Nega Maluca de Evaldo Ruy, que em nada também representa a mulher negra, pois mulher negra não é fantasia. Todos usam e abusam da imagem das pessoas negras, com seus corpos sendo expostos como mercadoria, momentos como esse do carnaval o negro é cooptado, é disputado, assim como no futebol, mas não há o mesmo interesse em ter o negro como parte das fileiras dos milhares de formandos em medicina, direito, psicologia, odontologia, ou qualquer outro curso de graduação e tudo mais que diz respeito ao desenvolvimento efetivo da população negra e do país.
Está mais do que evidente que a juventude negra vem sendo assassinada e perseguida diariamente. Em 2012, 77% dos jovens assassinados no Brasil eram jovens negros. A juventude negra é massacrada constantemente pelo racismo, seja por palavras ou por atitudes, e a grande maioria dos assassinatos de pessoas negras não é investigado corretamente [1].
É válido lembrar que dois dias antes da última apresentação do bloco carnavalesco, no dia 06 de fevereiro, 12 jovens negros foram assassinados pela PM de Salvador e o governador da Bahia, Rui Costa, apenas declarou que a polícia militar deve agir como artilheiro de um jogo de futebol, pois em poucos segundos tem que decidir como agirá. Um governador que em nenhum momento declarou-se contrário a ação da PM, de matar 12 jovens negros. O massacre da juventude negra acontece diariamente, diante de nossos olhos e é realmente muito triste perceber que existem pessoas que em nenhum momento param para refletir sobre as consequências de suas ações, sobre seus privilégios. Blackface não tem desculpa, não tem explicação! Blackface é racismo! E racismo não pode e não deve ser aceito!
Estamos falando de um país onde a maioria da população não é branca, é negra. Estamos falando de uma realidade nacional onde ser negro, pobre e periférico, é ser visto como marginal, bandido, criminoso. Estamos falando de um país onde crianças e jovens negros não possuem total acesso à educação e são mortas diariamente. Estamos falando de um país que se diverte e dá risada com o blackface no carnaval, reificando a ideia que o negro é um personagem caricato brasileiro, uma coisa que pode ser usada e emprestada quando bem quiser. Pessoas negras não são fantasias carnavalescas para pessoas brancas, são vidas, existem e sofrem com o racismo.
Expressamos, assim, total repúdio ao bloco Garibaldis & Sacis, que com o patrocínio da Fundação Cultural de Curitiba (ou seja, nosso dinheiro também) reproduz um estereótipo grotesco, contribuindo com o racismo da população brasileira ao disseminar esta prática infeliz que é somente mais um dos vários instrumentos racistas que a população negra tem que lidar diariamente. Artistas como estes que tem um grande público e reconhecimento, além de recurso visual e performático, utilizam suas formas de expressões artísticas em favor do racismo, prestando total desserviço e contrariando toda a luta que os movimentos negros vem travando contra o preconceito e contra o mito da democracia racial.
E se existiu blackface em um trio elétrico que era para trazer alegria e diversão às pessoas que estavam em Curitiba no último domingo, nós, pessoas negras, esperamos que nas próximas comemorações carnavalescas, o bloco Garibaldis & Sacis não esqueça que seu público é feito, também, pelas pessoas negras, que certamente se sentiram ofendidas com o racismo escancarado no blackface de um dos seus integrantes. O bloco ou desconhece a história da população negra ou a ignora.
Por fim, exigimos um esclarecimento do bloco Garibaldis & Sacis, pois, mesmo que a sociedade curitibana muitas vezes acabe pensando que não existam pessoas negras em Curitiba, nós estamos por aqui também! Nós, pessoas negras, não queremos que o carnaval se transforme em mais uma data onde o racismo seja veiculado através de “brincadeiras” preconceituosas, onde ele seja assunto velado e pouco discutido. Se é para falar das pessoas negras no carnaval, que se fale de nossos problemas, que nos deixe ser parte da formação do carnaval em Curitiba, pois aos nos colocar como fantasia, nos coloca, mais uma vez, como coisa, objeto sem valor, a carne mais barata do mercado.
Assinam essa carta:
Coletivo Sou Neguinh@
Priscila Souza

quinta-feira, 20 de março de 2014


Quatro razões para assistir 12 anos de escravidão



A primeira é que se trata de uma história fantástica, muito bem narrada filmicamente. Não basta fazer um filme, ter bons intérpretes, um bom argumento: é preciso contar bem uma história, qualquer história. O filme consegue fazer isto muitíssimo bem.

Em segundo lugar, é um narrativa que te propicia um mergulho na atmosfera da escravidão. De qualquer escravidão. A natureza do escravismo se apresenta diante de nossos olhos mediante a exploração da densidade dos personagens. Senhores, escravos, escravas, feitores, senhoras, comerciantes, traficantes, escravizadores americanos, mães, pais, amantes, e todos os outros personagens aparecem fortemente marcados pela natureza do escravismo. Ninguém fica imune à sua crueldade, a ideia de que seres humanos são propriedade de outrem, à sua violência. 

E diferentemente da escravidão antiga, a moderna, racializada, constrange, humilha e oprime um grupo imenso de seres humanos urdidos pelo fato de serem negros.  

Em terceiro lugar, como o filme é baseado num livro publicado em 1853, um livro escrito pelo homem livre vendido como escravo num país imenso como os Estados Unidos, um país onde a escravidão existia em Estados específicos, e não em todos eles, a sociedade escravista aparece como toda e qualquer sociedade humana, isto é, como toda configuração social formada por seres humanos em qualquer lugar do planeta e em qualquer época. Hierarquizada de alto ao baixo, do mundo de senhores e brancos não proprietários ao mundo dos escravos e dos negros livres. Brancos tinham sua própria hierarquia e relações de poder, e os negros também tinham as deles, na qual vários fatores intervinham para que houvesse maior ou menor potencial de retenção de poder concentrado por certos indivíduos.   

Em quarto e último lugar, se trata de uma história vivida por um homem livre, letrado, que foi escravo por pouco mais de uma década - um tempo muito longo para qualquer ser humano de sua condição viver no cativeiro. Ele conheceu dentro do escravismo, na condição de cativo, o que é viver no patamar mais baixo daquela sociedade. Negando ser quem era para sobreviver, o personagem central, um homem de carne e osso, músico, situava-se num estrato mais elevado de sua própria configuração formada pelos negros e, ao mesmo tempo, pelos escravos, considerando que a racialização marcava toda a sociedade, e justamente por isso ele foi escravizado. No entanto, ele escreveu, pois sabia como fazê-lo, e nos legou esta história fantástica. Vejam o filme. Vou procurar o livro. Assistam, assistam   


Texto de Luiz Geraldo Silva, Doutor em História Social na Universidade de São Paulo. É professor visitante da Universidad Pablo de Olavide de Sevilha (desde 2007) e da Universidad de Murcia (desde 2009). Desde 1993 é Professor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Colônia. Pesquisa principalmente os seguintes temas: vida social e aspectos religiosos, políticos e étnicos referentes à população escrava e de negros livres na América portuguesa e no Brasil imperial.

Em tempo: 

O filme ganhou o Oscar de melhor filme na edição de 2014, sendo o primeiro filme de um diretor negro a ganhar o Oscar. 

O livro de Solomon Northup foi lançado em fevereiro pelas editoras Seoman com 232 págs, por R$19,90, e a edição da Penguin-Companhia das Letras de 264 págs. que traz o texto introdutório original e um posfácio de Henry Louis Gates Jr. que além de escritor, editor, acadêmmicoe crítico literário, foi o primeiro negro americano a receber o Andrew W. Mellon Foundation Fellowship.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

PARTIU ROLEZINHO?


          


        Muito tem se falado do tal “Rolezinho”, que nada mais são do que o encontro de jovens de bairros periféricos, que se reúnem como muitos jovens por aí fazem, isso não era problema até eles escolherem como ponto de encontro os shoppings de São Paulo.
     Opiniões das mais diversas surgem no meio midiático e por fim nos temíveis comentários, e é em ambos que vemos qual a verdadeira cara da sociedade.
     Há quem argumente sobre a ótica social, outros vêem o ângulo racial, mas o que podemos afinal tirar de tudo isso?
    Os rolézinhos hoje são uma forma de resistência, tanto racial como social aos mecanismos que impedem a ocupação de negros e pobres em determinados espaços públicos, tanto geograficamente quanto socialmente. O Brasil ainda tende a separar aqueles que incomodam, e estes são todos que pertencem a esta massa pobre, não branca, gays, lésbicas, transsexuais, e demais grupos sociais considerados diferentes, que ousam ultrapassar o espaço que a princípio não deveria ser seu.
     Em entrevista recente ao site Geledés, o professor Alexandre Barbosa, Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que se dedica a pesquisar as manifestações culturais das periferias paulistas, indaga o seguinte: “Será que a classe média entende que os jovens estão ‘roubando’ o direito exclusivo de eles consumirem? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres há muito tempo.”
   Por mais que algumas pessoas não admitam, existe sim uma segregação enraizada na cultura brasileira, e esta segregação é sim social e racial. Da mesma forma que os jovens ocuparam espaços que antes não lhes era permitido nos EUA, os jovens brasileiros de diversos grupos tem se apropriado de espaços antes destinados apenas a um determinado grupo social.


Tudo bem ser preto e pobre, desde que seja bem longe da gente.


Franklin McCain (de óculos) e outros 3 estudantes, em 1 de Fevereiro de 1960, em Greensboro, na Carolina do Norte, sentaram-se no balcão de um snack-bar reservado a brancos. Pediram café e donuts e, quando recusaram servi-los ficaram ali sentados até a loja fechar. Voltaram no dia a seguir e em todos os seguintes – os movimentos de ocupação de espaço chamados sit-ins ajudou a incendiar a luta pela igualdade entre brancos e negros na América dos anos 1960
FOTO: Jack G. Koebes

E o Estado o que tem a ver com isso afinal?


     A preocupação que mais parece preocupar o Estado é a de se livrar do problema ao invés de resolvê-lo. Não há qualquer interesse em resolver o problema social e racial que se arrasta desde o fim da escravidão.


Se o Estado não consegue resolver o problema da desigualdade social é melhor escondê-la, como fez o estado do Rio de Janeiro com suas comunidades.

     

      Tive a oportunidade de presenciar em Curitiba anos atrás (entre 2006 e 2007) algo parecido com o que ocorre hoje nos shoppings de São Paulo. Havia ouvido falar em conversas na universidade que o shopping Estação estava barrando os jovens que eram tidos com “vileiros”, e um dia quando estava indo ao shopping com a minha irmã pude ver com meus próprios olhos o acontecido.
     Logo que estava chegando vi um destes “vileiros” na entrada e após uma abordagem do segurança deu meia volta e se afastou. Perguntei então ao segurança porque ele não estava deixando aqueles jovens entrarem. Segundo ele, há alguns dias atrás havia acontecido uma briga entre eles (vileiros) dentro do shopping e por segurança estavam barrando sua entrada. (A “cidade europeia” Lerniana precisa ser protegida da violência dessa gente e manter o seu estereótipo). 
     O Estado então, quando permite que uma liminar seja lavrada para proibir a entrada destes jovens onde quer que seja, está demonstrando sua posição, sendo tal atitude, favorável a uma parcela da população, que é mínima, e precisa ser protegida destes “vândalos” que ainda por cima são funkeiros.
      Vemos vários posts compartilhados como este abaixo, que reforçam de forma equivocada, o imaginário de quem são estas pessoas que participam dos “rolezinhos”: funkeiros, desempregados, arruaceiros e etc. Isto nada mais é que evidenciar, rotular e excluir uma classe social que precisa ser combatida e cuja existência incomoda e envergonha a classe dominante.




      





      A ocupação dos espaços sociais incomodam e muito, seja nos shoppings ou nas universidades (como é o caso da política de cotas que gera muita discussão) as políticas de inclusão foram apenas um pontapé na ferida social que o país carrega.
      O que a sociedade em geral precisa ter em mente é que (parafraseando o blog Torres daHeresia) se hoje muitos têm uma opinião equivocada acerca dos movimentos que acontecem na sociedade, o que eu posso dizer para essas pessoas é que o mundo só muda quando existem pessoas como nós, que lutam contra os ditames de uma época. Se hoje temos algum tipo de liberdade e democracia é graças aos negros, mulheres e jovens “vagabundos e sem vergonhas” de épocas passadas que estiveram na luta enfrentando os moralismos e as instituições daquela época.




Por Priscila Souza

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA NO PROGRAMA DE TELEVISÃO ESQUENTA: EQUÍVOCOS E REFORÇO DE ESTEREÓTIPOS. AINDA HÁ MUITO O QUE FAZER

O programa Esquenta da Rede Globo do último domingo 17 de novembro, fez um edição especial em comemoração ao dia da consciência negra. Esse programa que tem como apresentadora a atriz Regina Casé, caracteriza-se por trazer para a mídia um número considerável moradores da periferia, dentre eles de negros, mestiços, bem como atores e cantores negros da televisão brasileira. Há uma pretensão, dita abertamente de combater o racismo e dizer que no Brasil somos todos iguais – mito da democracia racial.

Neste último domingo o Esquenta contou com um público bem mais negro e com discussões, figurinos e apelos à questão do negro na sociedade brasileira. Mas embora os negros estivessem quantitativamente representados neste programa de tarde de domingo, os estereótipos continuavam a ser reforçados. Estavam presentes a Juiza Luizlinda, única desembargadora negra, a atriz Thaís Araújo, o ator Luíz Miranda e a ministra da Igualdade Racial. No programa esquenta normalemente os negros e mestiços estão neste programa para dançar e cantar, mas a fala científica sobre sua cultura, sobre o modo de vida da periferia é branca; é sempre um intelecutual branco que tem a palavra. É a essêncialização das culturas e das raças. É o “Danço logo existo” complementado com o “Penso logo existo”. Os negros que resolvem pensar para logo existir têm de fato vez na mídia e demais espaços da sociedade brasileira?

Neste domingo a intelectual negra ministra da igualdade racial, Luiza Bairros teve a oportunidade de falar duas vezes sobre a Lei 10639/03 que há dez anos reza que as escolas brasileiras ensinem a cultura e história Afro-brasiliera e africana. Sua fala foi completada pela de um intelectual branco. Isso mostra o fato evidente de que a ciência brasileira pretende ainda ser branca. Mesmo quando um intelectual negro tem a oportunidade de falar neste programa, é necessário que um intelectual branco legitime a sua fala.

A Juiza Luislinda, uma referência para os negros e mestiços, sobretudo para estudantes de direito, teve 10 segundos para falar, sendo interrompida pela Regina Casé, pois os programa precisava continuar a seguir sua pauta de acontecimentos. 

A Thaís Araujos, esperança de uma fala que realmente quebrasse todo o enredo do mito da democracia racial que perpassa todo o programa - e não fora diferente neste domingo - reproduziu e reforçou ainda mais o discurso do mito da democracia racial e da ideologia do branqueamento da população brasileira, ao falar da cor do filho que tem com o Ator Lazaro o Ramos e da cor de seu pai. Nas suas palavras:

“Minha mãe é mais negra, meu pai é filho de um negro com a pele um pouco mais clara com uma austríaca. Você olha pro meu pai, e ele é bem brancão, cheio de sardas, narigão… Ele é bem misturadão” e “Meu filho é bicolor. O rosto dele é da minha cor e o resto do corpo dele é pretinho igual ao pai dele”

De fato há muito o que fazer. O mito da democracia racial e a ideologia do branqueamento continuam a ser uma armadilha que impedem o resgate da iniciativa história da população negra na sociedade brasileira.